21/10/2026 às 06:53 Fotografia Percursos

Onda Branca

7min de leitura

Sobre criar enquanto se sente

Meu processo de criação artística sempre esteve relacionado às experiências que atravessei ao longo da vida. De alguma forma, a arte se tornou um lugar onde consigo revisitar acontecimentos, elaborar sentimentos e transformar vivências em expressão. Até então, havia uma certa distância entre viver e criar. Eu costumava atravessar uma experiência para, somente depois, quando ela já tivesse terminado ou adquirido algum sentido, transformá-la em matéria-prima para criação artística.

Esse ano isso mudou. Entrei para um grupo de fotografia terapêutica conduzido por Danny Bittencourt e, nesse espaço, passei a utilizar a fotografia como ferramenta para acessar, investigar e expressar sentimentos. Pela primeira vez, precisei criar enquanto sentia, sem esperar que aquilo que estava vivendo chegasse ao fim. Criar nessas condições fez com que eu me sentisse completamente exposto. Dentro daquele grupo, entretanto, havia um espaço protegido para experimentar essa vulnerabilidade. Estávamos ali para investigar nossas próprias experiências por meio da imagem, sem necessariamente precisar encontrar respostas ou apresentar resultados.

Foi a partir desse contexto que nasceu Onda Branca. Durante boa parte da minha vida, convivi com uma imagem que outras pessoas construíram a meu respeito ou, pelo menos, com aquela que me comunicavam: alguém forte, independente, bem resolvido e decidido sobre os caminhos da própria vida. Mas, internamente, nem sempre me reconheci nessa descrição. Isso não significa que aquelas características fossem falsas. Talvez elas representassem apenas aquilo que as pessoas conseguiam enxergar. O que acontecia dentro de mim nem sempre correspondia à imagem que eu projetava ou que esperavam encontrar.

Quando uma determinada imagem a nosso respeito se consolida na percepção dos outros, podemos começar, mesmo sem perceber, a corresponder às expectativas associadas a ela. Não significa que deixamos de ser verdadeiros ou passamos a interpretar um personagem, mas que nossa maneira de agir também passa a ser influenciada pela forma como somos percebidos. Aos poucos, a imagem projetada e a identidade se misturam, tornando mais difícil distinguir aquilo que reconhecemos em nós mesmos daquilo que aprendemos a demonstrar. A imagem não é necessariamente falsa, mas também não consegue representar a totalidade de quem somos.

Onda Branca nasceu justamente em um período em que eu me sentia distante daquela imagem projetada. Enquanto as pessoas talvez estivessem vendo alguém corajoso e decidido, eu me sentia como quando estamos no mar e uma onda nos surpreende antes que consigamos atravessá-la. Ela nos derruba, nos arrasta, nos faz perder o chão e, por alguns instantes, não sabemos onde está a superfície. Não distinguimos o alto do baixo, não encontramos apoio e sequer conseguimos compreender exatamente em que direção estamos sendo levados. Enquanto a onda não passa, encontrar-se parece impossível. Foi essa sensação que procurei traduzir em imagens.

A inspiração veio da música Silence, de Delerium com Sarah McLachlan, especialmente do verso “In this white wave, I am sinking”. A imagem de alguém que afunda em uma onda branca encontrou correspondência com o sentimento que eu procurava expressar. Ao mesmo tempo, o silêncio sugerido pela música trouxe outra dimensão à experiência: não apenas a desorientação provocada pela onda, mas a possibilidade de olhar para aquilo que se sente enquanto ainda estamos submersos.

Para materializar essa sensação, desenvolvi um ensaio de autorretrato utilizando tecidos brancos, movimento e longa exposição. Toda a produção foi realizada exclusivamente com luz natural, proveniente de uma janela. Ao fundo, um tecido era movimentado pelo vento produzido por um ventilador, enquanto eu interagia com outro tecido, segurando-o, lançando-o para o alto e movimentando meu corpo. A câmera, configurada com intervalômetro e longa exposição, registrava essa interação sem que eu precisasse interromper a experiência a cada disparo. O movimento dos tecidos e do corpo produzia formas que eu não conseguia controlar inteiramente, permitindo que o acaso também participasse da construção das imagens.

Ao todo, produzi 555 fotografias, das quais selecionei seis. Minha escolha não foi necessariamente orientada pela semelhança visual ou pela continuidade formal entre elas, mas pela possibilidade de construir uma narrativa a partir dos sentimentos que reconhecia em cada imagem. Juntas, essas fotografias passaram a representar diferentes momentos daquela sensação de afundamento que havia encontrado na música

Onda Branca #1

Na primeira fotografia, reconheço o recolhimento e a necessidade de proteção. Existe o desejo de encontrar um lugar seguro, de criar um abrigo diante de algo que parece maior do que nós. Mas essa proteção também carrega uma contradição: aquilo que nos acolhe pode, em determinadas circunstâncias, tornar-se o que nos impede de respirar. O sentimento de segurança convive com a sensação de sufocamento.

Onda Branca #2

Na segunda imagem, a sensação é de estar cada vez mais envolvido por algo que não consigo controlar. A onda deixa de ser uma presença distante e passa a ocupar todo o espaço. O abrigo começa a se confundir com a pressão, e aquilo que parecia oferecer proteção também limita os movimentos. Há uma sensação crescente de que já não sou capaz de determinar os limites daquilo que me envolve.

Onda Branca #3

A terceira fotografia representa a resistência. É o momento em que tento reagir, encontrar alguma direção e recuperar o controle. Mas resistir nem sempre significa conseguir sair de uma situação. Às vezes, quanto mais tentamos nos movimentar, mais percebemos a intensidade da força que nos atravessa. A tentativa de escapar convive com o reconhecimento de que nem tudo depende da nossa vontade.

Onda Branca #4

Na quarta imagem, a sensação é de desorientação. Já não existe uma referência clara de onde estou ou para onde devo seguir. É o momento em que a onda nos arrasta e perdemos a noção de superfície, profundidade e direção. A própria percepção de quem somos parece se confundir com aquilo que estamos atravessando. Encontrar um ponto de apoio torna-se tão difícil quanto reconhecer a própria posição.

Onde branca #5

Na quinta fotografia, surge a possibilidade de entrega. Não necessariamente como desistência, mas como reconhecimento dos limites da nossa capacidade de controlar o que acontece. Depois de tentar resistir, talvez seja necessário permitir que a experiência siga seu curso. A entrega, nesse sentido, não representa uma solução, mas uma mudança na maneira de lidar com aquilo que nos envolve.

Onde branca #6

Na última imagem, reconheço a transformação. Não como uma mudança concluída, mas como a possibilidade de continuar existindo de outra maneira. Depois do recolhimento, da resistência, da desorientação e da entrega, não existe necessariamente uma identidade pronta para ocupar o lugar daquela que conhecíamos. Há apenas a percepção de que algo se modificou, mesmo que ainda não seja possível compreender inteiramente o que isso significa.

Ao longo do ensaio, o tecido assume diferentes significados. Inicialmente, é um casulo, uma espécie de segunda pele que envolve o corpo e remete à ideia de metamorfose. O casulo oferece aconchego e proteção, mas também pressupõe recolhimento e transformação. Aos poucos, o mesmo tecido passa a representar abrigo, ameaça e sufocamento. Sua ambiguidade permite que a imagem oscile entre aquilo que acolhe e aquilo que coloca a própria existência em risco. O que envolve o corpo pode protegê-lo, mas também impedir seus movimentos, ocultar sua presença e comprometer sua orientação.

Como o ensaio nasce de uma experiência em processo, ele não chega a uma conclusão definitiva. Seu significado está também na possibilidade de perceber a transformação enquanto ela acontece. Antes, eu costumava esperar que uma experiência terminasse para compreender o que poderia fazer artisticamente com ela. Esse distanciamento, entretanto, pode transformar a própria vida em uma espécie de reserva de acontecimentos à espera de utilização futura. Em vez de simplesmente viver uma situação, corremos o risco de começar a observá-la como algo que, um dia, poderá servir de matéria-prima para uma criação. Com Onda Branca, experimentei outra relação entre arte e vida: a fotografia deixou de ser apenas uma maneira de elaborar aquilo que passou e tornou-se uma ferramenta para investigar aquilo que eu sentia no próprio momento da experiência.

Apresentar publicamente essas fotografias acrescenta uma nova dimensão ao processo. No grupo de fotografia terapêutica, a exposição pessoal acontecia dentro de um ambiente de confiança e acolhimento. Fora daquele espaço, compartilhar as imagens significa permitir que outras pessoas tenham acesso a uma experiência que, até então, pertencia a um contexto protegido. Existe uma diferença entre produzir imagens a partir da própria vulnerabilidade e decidir mostrá-las publicamente. A primeira experiência foi possível porque havia condições para investigar sentimentos sem a preocupação com a percepção externa; a segunda envolve justamente aceitar que essas imagens passarão a ser vistas, interpretadas e relacionadas à pessoa que as produziu.

Essa decisão me faz retornar à questão que atravessa a origem do ensaio: a distância entre a imagem que os outros constroem a nosso respeito e a identidade que reconhecemos em nós mesmos. Se durante muito tempo procurei corresponder a determinadas expectativas, compartilhar Onda Branca é também admitir que elas não precisam definir tudo aquilo que posso mostrar. Não se trata de substituir uma imagem de força por outra de fragilidade, mas de reconhecer que ambas podem fazer parte da mesma pessoa, sem que uma invalide a outra.

Talvez seja esse o sentido mais importante de tornar público um trabalho que nasceu de uma investigação pessoal. Não apresentar uma versão definitiva de quem sou, nem oferecer uma conclusão sobre aquilo que vivi, mas permitir que a minha produção artística expresse dimensões que nem sempre encontram espaço na imagem que os outros fazem de mim. Se antes eu precisava esperar a onda passar para tentar compreender o que havia acontecido, desta vez a fotografia me permitiu olhar para a experiência enquanto eu ainda procurava a superfície.

Onda Branca (2026)

Ensaio fotográfico autoral de Felipe Gonzaga.

Fotografias: Onda Branca #1, #2, #3, #4, #5 e #6.

Trabalho desenvolvido a partir de um processo de investigação pessoal por meio da fotografia terapêutica, sob condução de Danny Bittencourt.

21 Out 2026

Onda Branca

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Autorretrato fotografia autoral Onda Branca

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