05/08/2026 às 06:33 Percursos

O que sempre esteve aqui

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Olá. Resolvi voltar a escrever.

Este blog nunca havia sido realmente utilizado e me parece um bom ponto de partida para registrar o momento que estou vivendo. O site ficou abandonado por algum tempo porque outras áreas da vida gritavam suas urgências.

Passei muitos anos dentro de instituições de ensino, como professor nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design de Interiores e, mais recentemente, em uma pós-graduação em Design de Interiores. Também passei por diferentes escritórios de arquitetura, desenvolvendo projetos dos quais me orgulho muito de ter feito parte.

Em meio a todas essas demandas, o Felipe — e o Viagem de Arquiteto — acabou ficando um pouco de lado.

Enquanto escrevia este texto, lembrei-me de uma fala da Sandy antes de cantar Salto. Ela comentava que algumas músicas nascem de histórias ouvidas, outras de experiências vividas. Em uma delas, o artista encontra inspiração. Outras, precisa arrancar de dentro de si.

Durante muito tempo, o Viagem de Arquiteto foi algo muito íntimo. Embora já existissem o nome, o site e o perfil no Instagram, a compreensão do que ele realmente era ainda estava se formando dentro de mim. Talvez ele nunca tenha se organizado como agora porque precisava desse tempo de maturação. Eu não queria que nascesse prematuro.

Sou perfeccionista — ou, pelo menos, tenho uma busca um pouco maior do que o comum por fazer as coisas bem-feitas. Isso também contribuiu para que eu adiasse a existência mais pública do Viagem de Arquiteto.

Em junho de 2025, encerrei meu ciclo regular dentro da faculdade. A partir daí, comecei a organizar também minha saída do escritório, que aconteceu no início de 2026. Nos meses seguintes, passei a olhar com mais atenção para aquilo que chamo de reestruturação da carreira.

Não se trata de abandonar uma trajetória para começar outra. Trata-se de reorganizar o espaço ocupado por tudo aquilo que sempre fez parte de mim.

A fotografia como meio de travessia

Foi nesse período que a fotografia voltou a ocupar o espaço que merecia dentro da minha vida.

Como bom procrastinador, percebi que precisava assumir compromissos concretos para transformar vontade em movimento. Fiz o curso O Poder da Autoria, com o fotógrafo Robison Kunz, e depois participei do desafio Fotógrafo Poderoso: uma imersão de 30 dias durante a qual me comprometi a produzir novos ensaios.

Convidei pessoas para fotografar, atualizei meu portfólio e concluí entregas que estavam atrasadas. A fotografia nunca havia desaparecido. Ela sempre esteve presente, mas de maneira paralela e secundária.

Também participei, durante três meses, de um grupo de Fotografia Terapêutica conduzido por Danny Bittencourt. Eu já havia lido seus livros e feito uma consultoria com ela em outro momento de reorganização da minha atuação fotográfica. No grupo, porém, vivi um processo contínuo que trouxe clareza para diferentes áreas da minha vida.

Uma das ideias que atravessaram meu projeto final foi a de que o ser humano é sedimentar: somos construídos por camadas.

Até então, eu costumava esperar que uma dificuldade ou um período desafiador terminasse para depois transformá-lo em fotografia. A imagem funcionava como elaboração e consolidação de algo que já havia passado.

Dessa vez, foi diferente.

Eu usei como material aquilo que estava vivendo enquanto ainda vivia. Desenvolvi projetos sem saber exatamente aonde eles me levariam. A fotografia não veio depois da travessia. Ela foi o meio pelo qual atravessei.

O retorno ao improviso

Outra área da minha vida também reapareceu nesse processo: o teatro. Quando entrei na UFRJ, em 2004, deixei os palcos para trás. Como grande parte das relações que mantenho hoje surgiu depois disso, muita gente que convive comigo nem sabia que essa experiência fazia parte da minha história.

Neste ano, consegui uma bolsa para fazer um curso de improvisação teatral no Senac. Foram quase dois meses intensos, que culminaram em uma apresentação, e foi muito bom ter feito parte desse processo.

Voltar ao teatro me ofereceu ferramentas para me expressar melhor, relacionar-me com o desconhecido e aceitar aquilo que ainda não tem um resultado previsto. No improviso, por mais que exista preparação, alguma coisa sempre dependerá do encontro, da escuta e do instante.

Reestruturar uma carreira também tem algo de improvisação. Podemos planejar, estudar e organizar, mas ainda estamos nos lançando em um território cujo resultado não controlamos completamente.

Compromissos contra a autossabotagem

Foi então que compreendi melhor por que havia assumido tantos compromissos em um intervalo tão curto.

Além do desafio fotográfico, participei de cursos, grupos e imersões. Ao me comprometer com outras pessoas, criava uma estrutura externa que me ajudava a realizar aquilo que sozinho poderia continuar adiando.

Ser o próprio chefe é mais difícil do que parece. Há dias de cansaço, preguiça, insegurança e medo. Quando ninguém cobra, é fácil renegociar consigo mesmo tudo aquilo que deveria ser feito.

Assumir compromissos foi minha maneira de não me sabotar. Quase como dizer: vou criar situações nas quais alguém me ajude a sustentar aquilo que decidi fazer.

Só ao escrever este texto percebi quanto medo existia por trás dessa movimentação. Era muita coisa para reorganizar, e eu ainda não havia dimensionado o tamanho do desafio. Colocar a mão na massa foi a maneira que encontrei de não permanecer paralisado diante dele.

Da experiência à mentoria

É também desse processo que nasce minha mentoria de TFG.

Agora que não estou vinculado regularmente a uma instituição, posso acompanhar estudantes sem gerar conflitos de interesse e continuar exercendo uma das coisas que mais amo na vida — talvez aquela que eu mais ame: ensinar.

A mentoria oferece ao estudante uma camada adicional de acompanhamento. Quando alguém procura voluntariamente um auxílio externo, assume um compromisso concreto com o próprio trabalho. Passa a existir uma estrutura de encontros, metas, devolutivas e prestação de contas que ajuda a manter o processo em movimento.

Não se trata de substituir a orientação oferecida pela universidade. Trata-se de criar outro espaço de escuta e acompanhamento, voltado às necessidades específicas de cada estudante.

Ao longo de mais de dez anos de docência, orientei mais de 150 trabalhos. Nem sempre as condições institucionais permitiam oferecer a cada aluno o tempo, a proximidade e a continuidade que eu considerava ideais.

Na mentoria, pude condensar essa experiência em um processo estruturado, com encontros individuais e acompanhamento próximo. Um espaço para transformar ideias, dúvidas e inquietações em decisões possíveis — e para impedir que o medo, o cansaço ou a procrastinação paralisem um trabalho que merece chegar à banca.

Talvez seja essa a principal descoberta desta fase: reestruturar não significa apagar o que existia e começar do zero.

Significa reconhecer as camadas que nos formaram, recuperar partes que ficaram adormecidas e reorganizar tudo isso de uma maneira mais coerente com quem somos agora.

O Viagem de Arquiteto retorna assim: não apenas como um site de fotografia, mas como o espaço em que arquitetura, educação, fotografia, cultura e criação finalmente podem existir juntas.

05 Ago 2026

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Tags

fotografia autoral fotografia terapêutica mentoria de TFG processos criativos reestruturação de carreira teatro

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