11/09/2026 às 22:32

Algumas ideias não vão embora

5min de leitura

Na noite do lançamento de Arte e Rua, eu poderia simplesmente ter falado sobre o livro. Explicar capítulos, comentar a pesquisa, apresentar referências. Mas me pareceu mais interessante contar um pouco sobre a cabeça da pessoa que escreveu esse livro e, principalmente, sobre o caminho que fez com que ele existisse.

Pouco antes do lançamento, vi um trecho de uma entrevista da Anitta em que ela contava que, ainda criança, quando passava com a família em frente ao antigo Projac, pedia que avisassem onde era para poder dizer algo como: “Vocês ainda não me conhecem, mas eu vou trabalhar aí.”

Aquilo me pegou por um motivo muito específico.

De uns tempos para cá, tomei algumas decisões importantes na vida e, como acontece tantas vezes, comecei a me perguntar se estava fazendo as escolhas certas, se estava indo na direção certa, se os resultados deveriam estar aparecendo mais rápido. Existe uma ansiedade muito grande em querer que tudo se resolva imediatamente. Às vezes, quando uma coisa não acontece no tempo que imaginamos, parece que todo o caminho está errado.

Foi então que percebi que a história desse livro também é uma história sobre tempo.

Muito antes de Arte e Rua ser um livro, existiu uma ideia que entrou na minha cabeça e simplesmente não foi embora.

Ainda na faculdade de Arquitetura, assisti a um episódio de Ser ou Não Ser?, quadro apresentado por Viviane Mosé no Fantástico, que falava sobre indiferença. Uma das imagens usadas era muito simples: o tic-tac de um relógio. Quando nos deitamos em um ambiente silencioso, percebemos aquele som repetidamente. Depois de algum tempo, ele continua existindo, mas deixamos de ouvi-lo.

A discussão era sobre isso: sobre como podemos nos acostumar ao que está diante de nós. À violência, à desigualdade, ao sofrimento, ao absurdo.

Aquilo ficou na minha cabeça.

Ainda em 2006, essa inquietação apareceu em um trabalho de faculdade chamado Corredor Social. Anos depois, reapareceu na minha monografia e no meu Trabalho Final de Graduação. O projeto era uma casa de espetáculos, mas, quando voltei a olhar para aquele material muito tempo depois, percebi que toda a justificativa estava baseada em uma preocupação com transformação urbana.

Na época, eu sequer percebia isso com clareza. Na minha cabeça, eu nem gostava de urbanismo durante a faculdade. Mas a questão já estava lá.

Em 2016, ela reapareceu no meu mestrado. Grande parte do que mais tarde se tornaria Arte e Rua nasceu da dissertação desenvolvida naquele período.

O mestrado acabou. A questão ficou.

Quando o livro finalmente ficou pronto, senti vontade de voltar ao início dessa história. Procurei Viviane Mosé pelo Instagram e contei que aquela reflexão que ela havia colocado no mundo tantos anos antes tinha atravessado minha formação, chegado ao mestrado e, de alguma maneira, contribuído para a existência daquele livro.

Achei que ela nunca responderia.

Ela respondeu.

Com muita honestidade, agradeceu pelo carinho e disse que não poderia receber o livro. Recebia ofertas de livros constantemente, já tinha muitos outros esperando para serem lidos e sabia que provavelmente não conseguiria chegar ao meu. Mas disse que se sentia honrada por saber que havia inspirado a mim e ao meu trabalho.

Achei a resposta maravilhosa justamente por isso.

Ela não precisava ler o livro. O que eu queria era que soubesse que algo que ela havia colocado no mundo continuou produzindo efeitos em outra pessoa quase vinte anos depois.

Talvez por isso eu tenha pensado imediatamente em A Origem, de Christopher Nolan, meu filme favorito. O filme gira em torno da possibilidade de implantar uma ideia na mente de alguém de maneira tão profunda que ela passa a fazer parte da forma como aquela pessoa compreende a realidade.

Se eu tivesse que escolher um personagem dessa história, provavelmente não seria o personagem de Leonardo DiCaprio. Seria Mal, interpretada por Marion Cotillard, a personagem que carrega uma ideia implantada dentro de si.

Viviane Mosé colocou uma questão no mundo. Eu a recebi. E, quase vinte anos depois, continuo falando sobre indiferença.

Porque não pode ser normal atravessar uma cidade, encontrar pessoas vivendo nas ruas, passar por territórios marcados pela miséria, pela dependência química e pela exclusão, e simplesmente entender aquilo como parte inevitável da paisagem.

Outro fragmento que apareceu para mim justamente nos dias anteriores ao lançamento foi uma fala da Jout Jout: conseguimos controlar aquilo que dizemos, mas não conseguimos controlar aquilo que o outro ouve.

Quem recebe uma mensagem recebe a partir de sua própria história, de seu repertório, de seus afetos e de suas experiências.

Talvez o mesmo aconteça com a cidade.

No livro, há um trecho de Acontecimentos na Irrealidade Imediata, de Max Blecher, que me acompanha de maneira muito particular. O narrador observa as pessoas como se estivessem protegidas dentro de suas roupas, isoladas do mundo por suas “prisões maravilhosas”. Em oposição a elas, ele não consegue estabelecer uma separação entre si e aquilo que o cerca. O mundo o invade.


Essa imagem me afeta profundamente.

Talvez porque eu reconheça nela uma maneira de estar no mundo que também é minha. Existem coisas que eu simplesmente não consigo deixar do lado de fora.

E então surge outra pergunta: o que eu posso fazer com isso?

Eu não consigo resolver a cidade. Não posso simplesmente chegar ao poder público com um projeto e determinar que ele seja executado. Não tenho recursos ilimitados para transformar fisicamente os espaços que me incomodam.

Mas eu posso provocar pensamento.

Talvez essa seja uma das ferramentas que tenho.

Arte e Rua é também isso: uma tentativa de colocar uma questão no mundo e fazer alguém olhar para alguma coisa que talvez estivesse deixando de perceber.

No mestrado profissional que deu origem à pesquisa, era necessário apresentar uma proposta de intervenção. Minha ideia foi retirar simbolicamente a arte de dentro dos grandes equipamentos culturais da região da Luz e levá-la para a rua.

Mas essa arte seria formada justamente pelas pessoas que costumamos tornar invisíveis.

Imaginei um percurso de aproximadamente trinta esculturas entre o Museu da Língua Portuguesa e a Sala São Paulo. Uma figura humana apareceria progressivamente em diferentes posições, como os quadros sucessivos de uma animação: primeiro ereta e, aos poucos, curvando-se até cair.

As esculturas seriam rachadas. Dessas rachaduras sairia luz.

A ideia era simples: mesmo quando aquela figura se desfizesse, aquilo que existia dentro dela escaparia para a cidade e se misturaria ao espaço.

Nas semanas que antecederam o lançamento, usei inteligência artificial para finalmente visualizar aquelas cenas que, no livro, existiam apenas como croquis. Foi quase como reencontrar um projeto antigo e permitir que ele ganhasse uma nova materialidade.

E foi justamente depois dessas imagens que encerrei minha fala no lançamento.

Minha artista visual favorita, Mary Vieira, entendia a obra como algo que não se encerrava simplesmente na ação do artista. A obra continuava na relação estabelecida com o público.

Talvez seja exatamente esse o lugar em que Arte e Rua se encontra agora.

O livro está pronto. A minha parte, de alguma maneira, terminou.

A partir daqui, ele pertence também a quem o lê, a quem discorda, a quem associa aquelas ideias a outras coisas, a quem encontra nele uma pergunta que eu jamais imaginei formular.

Eu consigo controlar aquilo que escrevi.

Não consigo controlar aquilo que cada pessoa encontrará nessas páginas.

E ainda bem.

Talvez seja justamente aí que um livro comece.

Por isso, desde o lançamento, tenho escrito a mesma dedicatória nos exemplares:

Que a indiferença jamais nos alcance.

11 Set 2026

Algumas ideias não vão embora

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