Projetos Autorais

Ressurgir

Em Ressurgir, um autorretrato é congelado até desaparecer sob uma camada opaca. Ao sair do freezer, essa superfície começa a se desfazer lentamente, permitindo que o rosto volte a ser reconhecido. A imagem, antes aprisionada e encoberta, reaparece aos poucos por meio da transparência produzida pelo degelo.

A opacidade funciona como uma forma temporária de cegueira. Enquanto ela permanece, não é possível perceber com clareza o lugar ocupado nem reconhecer a própria presença dentro dele. Quando a película se dissolve, aquilo que estava oculto torna-se visível — e esse reconhecimento também produz angústia. Ver-se preso desperta a urgência de sair.

O gesto de quebrar o gelo interrompe o tempo natural do derretimento. Já não basta esperar que a barreira desapareça: é preciso agir sobre ela, abrir fissuras e criar uma passagem. Ressurgir não acontece, portanto, como um retorno intacto ou sereno, mas como um impulso de sobrevivência. É o instante em que se reconhecer dentro de uma condição insustentável produz a força necessária para rompê-la.

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