Projetos Autorais

O que resta

Depois de reconhecer a própria presença e encontrar forças para sair de uma condição insustentável, permanece uma pergunta: o que restou de mim?

Produzido após uma separação e o retorno da Suíça para o Brasil, O que resta nasce desse momento de ruptura, quando as referências que sustentavam uma identidade já não pareciam suficientes. A experiência particular, no entanto, abre-se para uma inquietação comum a diferentes processos de perda e transformação: depois de atravessar algo que nos modifica profundamente, quem somos quando aquilo termina?

Na série, um autorretrato impresso é colocado sobre a chama de uma vela. O calor atravessa o papel, produz fumaça e começa a perfurar o olho — justamente o lugar por onde o sujeito vê e se reconhece. A fotografia deixa de funcionar apenas como representação e passa a reagir fisicamente ao fogo. O retrato é consumido, deformado e transformado diante da câmera.

O fogo surge como força ambígua: destrói, mas também promete renovação. Diante da dor, existe o desejo de queimar o que aconteceu, apagar seus vestígios e ressurgir livre daquilo que nos feriu. Essa vontade é legítima e também faz parte da travessia. Entretanto, a matéria queimada não desaparece por completo. Ela escurece, rompe-se e assume outra forma.

Não retornamos intactos, mas tampouco deixamos de existir. O que permanece são marcas, vazios e novas possibilidades de leitura. Ao perguntar o que resta, a série não encontra uma ausência: encontra uma presença transformada.

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