A gente passa muito tempo com a sensação de estar começando.
Até que um dia a gente organiza os arquivos e percebe que já existe uma trajetória ali. Não como uma linha reta, nem como uma sequência de vitórias perfeitamente organizadas, mas como um percurso feito de tentativas, escolhas, desvios, retornos e alguns marcos que merecem ser reconhecidos.
Foi assim que percebi que, desde 2018, dez fotografias minhas foram selecionadas para exposições internacionais com obras impressas, entre mostras já realizadas e próximas exposições previstas. São seleções em sete cidades, sete países e três continentes, envolvendo galerias, feiras e espaços culturais.
Mais do que um número, essas dez seleções me fizeram olhar para trás e perceber uma costura que eu talvez não enxergasse enquanto tudo estava acontecendo. As imagens não apareceram como peças soltas. Elas começaram a formar uma narrativa sobre direção, arquitetura, corpo, travessia, tentativa, recolhimento e presença.
A primeira fotografia foi feita em Londres, logo depois de uma visita à cúpula da Catedral de St. Paul. Depois de ver a cidade do alto, em uma perspectiva ampla, aberta, quase inesgotável, desci para o metrô e encontrei um túnel entre estações. Ali, o olhar já não se espalhava pela paisagem: era conduzido por linhas, luzes e repetição até um ponto de fuga.
Essa imagem foi selecionada para a exposição Monochrome, em 2018, na Bruno Gallery, em Singapura. Foi a primeira vez que uma fotografia minha foi impressa e apresentada em uma galeria. Hoje, olhando para ela, essa imagem me parece falar de caminhos diferentes, cada um apontando para seu próprio objetivo.

A segunda imagem também nasceu em um espaço subterrâneo, mas em outro contexto: o Oculus, em New York, projeto de Santiago Calatrava. Diferente do túnel de Londres, onde a perspectiva conduzia o olhar de forma quase inevitável para um ponto único, aqui a composição se organiza por ritmo, repetição e estrutura. As linhas se multiplicam, criam constância e apontam para uma direção comum.
Selecionada para a exposição Creative Composition, no Espaço Espelho d’Água Gallery, em Lisboa, essa fotografia continua tratando de passagem e direção, mas de uma maneira menos literal. Não é apenas um caminho: é uma forma de organizar o olhar.

A terceira imagem foi feita no The Vessel, em Nova York, ainda antes da instalação das telas de proteção que modificariam a experiência do espaço. Aqui o olhar já não é conduzido por um eixo único. Ele se perde e se encontra em múltiplos caminhos: escadas, patamares, reflexos, direções cruzadas. É uma arquitetura de possibilidades.
Você pode subir, descer, repetir trajetos, mudar de ângulo, voltar a um ponto parecido sem perceber. Para completar todos os caminhos, seria preciso atravessar ciclos e mais ciclos. Talvez por isso essa imagem tenha se tornado, para mim, uma metáfora tão precisa de uma trajetória criativa: nem todo avanço acontece em linha reta, e às vezes é preciso reconhecer quando um ciclo já ensinou o suficiente para permitir outro nível.
Essa fotografia foi originalmente selecionada para a MIA Photo Fair, em Milão, dentro da exposição The Art of B&W. Por causa da pandemia de coronavírus, a feira não aconteceu naquele ano, e a exposição foi posteriormente realizada na Photosynthesis Gallery, em Sofia, na Bulgária. Mesmo com esse deslocamento, essa seleção permanece como um marco importante para mim. Ver a imagem ampliada, ocupando um lugar de destaque na exposição, foi uma grande alegria.

Depois dos túneis, centros, escadas e ciclos, aparece uma ponte.
A fotografia da Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, selecionada para a exposição Travel Photography, no Valid World Hall Gallery, em Barcelona, traz outra imagem de percurso. Aqui não se trata mais de encontrar um ponto de fuga ou escolher entre muitos caminhos internos, mas de atravessar. A ponte aponta para um deslocamento possível: quando um ciclo chega ao seu limite, talvez não seja preciso subir mais, mas construir uma passagem para outro território.
Tenho pensado muito nisso. Às vezes, chegar ao topo de alguma coisa não significa que a próxima etapa seja subir ainda mais. Pode significar mudar de direção.
Foi isso que me chamou atenção, por exemplo, no projeto Equilibrivm, da Anitta. Depois de construir uma carreira em torno da ideia de alcançar lugares cada vez maiores, ela parece abrir outra pergunta: depois de chegar a determinados topos, para onde atravessar? A ponte, nessa fotografia, me devolve algo parecido. Talvez exista um momento em que o movimento mais importante não seja conquistar outro nível, mas entender qual travessia faz sentido agora.
Essa pergunta também atravessa o Viagem de Arquiteto. Durante muito tempo, o projeto pareceu reunir frentes demais: arquitetura, fotografia, educação, cidade, cultura, viagens, publicações, ensaios, mentorias. Hoje, entendo que isso não era dispersão. Era o meu corpo, o meu pensamento e o meu olhar procurando uma forma própria de existir no mundo.

Anos depois, a sequência me levou para outro território. Depois de túneis, estruturas, escadas e pontes, apareceu o corpo.
A fotografia do Sayron nasceu no meu primeiro ensaio em estúdio com uma pessoa, em São Paulo, com a presença generosa da minha amiga Gabi, da Afrofeto, que praticamente me deu uma aula de iluminação naquele dia. No fim do ensaio, começamos a experimentar com flash, longa exposição e movimento de câmera. A imagem foi feita com 1,6 segundo de exposição — tempo suficiente para que a luz não apenas iluminasse o corpo, mas também desenhasse uma camada em torno dele.
A fotografia foi selecionada para a exposição Powerful Lighting, no Valid World Hall Gallery, em Barcelona. Para mim, ela tem a sensação de uma porta se abrindo. Eu costumo dizer que há momentos em que parece que uma luz chega — não apenas no sentido físico, mas como uma espécie de abertura. Essa imagem tem isso: uma presença atravessada por luz, gesto e acaso.

A segunda fotografia de pessoas selecionada para exposição também foi feita com Sayron, mas agora em outro registro. Se na imagem anterior a luz parecia abrir uma porta, aqui o corpo encontra o movimento e o tecido.
Eu queria explorar algo ligado à dança, à leveza e ao gesto, já que ele é bailarino. Levei diferentes tecidos, testei possibilidades, observei peso, transparência, opacidade, cor. Havia escolhas sob meu controle. Mas o desenho final que o tecido faria no ar já não me pertencia. Era preciso lançar, observar, disparar e estar atento ao instante.
Essa imagem, selecionada para a exposição Very Best of Black & White, no Art Market Budapest, me interessa justamente por essa zona entre controle e acaso. Talvez por isso eu veja nela uma espécie de metáfora do destino: não controlamos tudo o que aparece, mas participamos ativamente da construção das condições em que algo pode acontecer.
O resultado me sugere quase uma aparição. Como se o corpo flutuasse por um instante, envolto em uma forma que lembra asas. Algo efêmero, capturado no intervalo mínimo de uma fração de segundo.

Depois do corpo e do tecido, a sequência retorna à ponte.
A imagem da Millennium Bridge foi feita em Londres, em um 25 de dezembro. A cidade estava atravessada por um silêncio raro: transporte parado, ruas esvaziadas, uma espécie de suspensão que talvez só um Natal londrino permitisse. Eu sempre quis fazer essa fotografia. A ponte, com a St. Paul’s Cathedral ao fundo, era uma imagem icônica para mim.
Curiosamente, anos depois, outra fotografia minha seria feita depois de sair da própria St. Paul’s, no metrô de Londres. Uma imagem veio antes da catedral; a outra, depois. Não são da mesma viagem, mas parecem conversar como se fossem parte de um mesmo ciclo.
Essa fotografia foi selecionada para a exposição Art of Black & White, no Valid World Hall, em Barcelona. Se a imagem de Sayron com o tecido falava do gesto imprevisível e do que se desenha no ar por uma fração de segundo, a Millennium Bridge traz outro tipo de suspensão: a cidade quase vazia, a ponte como linha de passagem e a arquitetura como horizonte.

A sequência retorna ao corpo em Solo - Single Subject, exposição prevista para a Gallery Fotoatelier x Foundation Anagi AFA, em Tbilisi.
Nessa imagem, Sayron já não aparece atravessado pela luz nem envolvido pelo tecido. Ele próprio se torna o assunto da fotografia. Há muito espaço ao redor, muito respiro, muito vazio — um espaço negativo que, em vez de diminuir sua presença, a intensifica. O gesto quase congelado da dança, a direção da luz e a ausência quase total de elementos produzem uma imagem mais depurada.
Olhando hoje, percebo que aqui eu alcanço, na fotografia de pessoas, uma essência que já buscava antes na arquitetura: poucos elementos em cena, mas com força suficiente para sustentar toda a imagem.
Na cidade, eu conseguia apontar para um detalhe, um objeto, uma estrutura e construir uma imagem limpa. Nas pessoas, esse caminho primeiro passou por mediações — luz, tecido, experimento — até chegar a um momento em que o corpo, por si só, bastava.

A penúltima imagem aprofunda esse movimento para dentro.
Selecionada para a exposição Best of Black & White, no Valid World Hall, em Barcelona, ela mostra Sayron com os olhos fechados e os braços envolvendo o próprio corpo, quase como num gesto que antecede um abraço. Há algo de silêncio nessa imagem, uma espécie de pausa depois do movimento.
Se nas primeiras fotografias o olhar encara a câmera, depois suaviza e mais adiante se desvia, aqui ele se fecha. Os olhos voltam para dentro. Para mim, essa imagem conversa diretamente com o momento atual da Viagem de Arquiteto: depois de tantas frentes abertas para fora, 2026 tem sido um ano de recolher, organizar, olhar para dentro e reconhecer o que já estava aqui.
Não é um processo fácil, mas tem sido prazeroso.

A décima imagem fecha o percurso com um olhar.
Depois do corpo em movimento, do tecido, do espaço negativo e do recolhimento, o olhar volta para a câmera. Mas ele já não aparece como enfrentamento. É um olhar que vê e, ao mesmo tempo, convida a ser visto.
Essa fotografia foi selecionada para a exposição Art of Black & White, prevista para a Artful Yoga Gallery, em Melbourne. Para mim, ela sintetiza um momento de retorno. Depois de encarar o mundo, colocar meu trabalho em circulação, receber recusas, acolher confirmações, atravessar ciclos e olhar para dentro, chega a hora de devolver esse olhar. Não como quem precisa provar alguma coisa, mas como quem reconhece um caminho percorrido e se permite aparecer a partir dele.

Lembro de uma fala da Beyoncé no discurso Dear Class of 2020, quando ela comenta que, apesar dos muitos Grammys recebidos, também perdeu dezenas de vezes. Essa lembrança me interessa porque desloca a narrativa da vitória para a persistência.
Dez seleções internacionais podem soar como uma sequência de confirmações, mas elas existem no meio de muitas tentativas, muitas recusas e muitos silêncios. O primeiro sim não transforma todos os caminhos seguintes em sim. Ele apenas mostra que continuar é possível.
Talvez seja isso que essas dez imagens me ajudem a entender agora.
Elas não formam apenas uma lista de exposições. Elas contam uma trajetória em construção: da direção ao desvio; da arquitetura ao corpo; da travessia ao recolhimento; do medo de ser visto ao gesto de devolver o olhar.
E, nesse percurso, a fotografia foi deixando de ser apenas um registro do mundo para se tornar também uma forma de reconhecer o caminho que eu vinha construindo.